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segunda-feira, 4 de julho de 2011

A Incrível História da Bosta Milagrosa

    Tudo começou como um boato numa pequena cidade no interior do país. Segundo diziam, as fezes de um rapaz lá residente teriam imensos poderes curativos e milagrosos de uma maneira geral. 
    Quando a imprensa tomou conhecimento e mandou dúzias de repórteres para averiguar o que estava acontecendo a coisa já tinha tomado proporções tão grandes que a merda do sujeito já era dissolvida em milhares de litros de água e enviada para todo o mundo por um precinho camarada: "A legítima BOSTA MILAGROSA, recuse imitações!". 
    A água turva podia ser ingerida ou simplesmente esfregada sobre o local desejado. Cegos passaram a enxergar depois de lavar seus olhos com ela, tetraplégicos voltaram a andar, surdos a escutar, alunos que não estudavam passavam no vestibular depois de ingerir todo o conteúdo de uma garrafinha, inimigos jurados faziam as pazes após compartilharem uns goles do fétido líquido...
    Aos poucos a coisa toda foi tomando proporções tão grandes, mas tão grandes que a humanidade, depois de guerras e mais guerras, negociações e muita politicagem estava a apenas alguns passos da paz mundial.
    Foi quando finalmente conseguiram uma entrevista com "O Homem que Cagava Milagres", como o rapaz passou a ser chamado. Ele estava com uma postura serena na coletiva de imprensa, e a primeira pergunta foi logo essa:
    - Como foi que você descobriu esse poder todo?
    Após ponderar por alguns instantes, ele respondeu com um sorrisinho de lado:
    - Nem queira saber...


FIM

quarta-feira, 25 de maio de 2011

BANG!



Por um instante o homem tira o cano do "trezoitão" enfiado na boca do sujeito ajoelhado a sua frente e pergunta olho no olho, com a arma apontada para sua testa:
- Se tivessem feito com a sua filha o que você fez com  minha tu faria o que, homem?
A resposta vem sincera e com pesar alguns instantes depois.
- Dava um tiro no filho-da-puta...
BANG!


FIM

segunda-feira, 7 de março de 2011

O Último Desejo


Todos se sobressaltaram quando em seu leito de morte o moribundo pediu que trouxessem seu mais notório desafeto para uma conversa derradeira. A doença lhe restringia praticamente todos os movimentos e o mantinha preso a cama, mas deixou sua lucidez intacta resolveram acatar-lhe a vontade. 
"Quer perdoar e ser perdoado, que lindo!",  comentava quem estava por perto. 
O inimaginável visitante veio logo que foi chamado. Entrou no quarto e ali foi deixado a sós com o enfermo.
A principio apenas entreolharam-se, mas quando o homem que estava de pé começou a abrir a boca o moribundo soltou um gasnido baixo, praticamente inaudível. 
O gesto repetiu-se algumas vezes até que o homem dirigiu-se até ele e inclinou a cabeça para perto de sua boca, com a intenção de colar seu ouvido a ela e ouvir o que tinha de ser dito.


Nhac!


Quando ouviram os gritos vindos de dentro do quarto era tarde demais: O homem da cama finalmente tinha morrido. Não pela doença, mas engasgado com um naco de carne arrancado com uma mordida precisa no pescoço do "amigo", que jazia encostado na parede ao seu lado com a jugular dilacerada.


FIM

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O Corno


Por onde o corno passava, todo mundo comentava baixinho: 
"Lá vai o chifrudo!". 
Mas não baixo o suficiente que o corno não pudesse ouvir. Por vezes não era preciso nem ouvir, bastava olhar pras pessoas e ver o escárnio estampado na fisonomia delas. 
"Lá vai o corno!". "Lá vai o chifrudo!". "Abaixa pra passar pela porta senão quebra o chifre!".
E isso foi tomando conta de tal maneira da alma e do coração do corno que um dia ele não aguentou mais e se matou. 
No velório as pessoas comentavam: 
"Que absurdo, moço tão novo, inteligente e bonito fazer uma besteira dessas por causa de mulher...".


FIM

sábado, 6 de novembro de 2010

"The Forever Please Remember"



*Baseado em fatos reais.


Quem gosta de escrever certamente já passou por momentos de bloqueio criativo durante os quais não  consegue "parir" nada que valha a pena. Não, não estou passando por uma fase dessas (embora ultimamente não esteja escrevendo com a frequência que gostaria), só comentei isso antes de ir para a história (de tão bizarro título, diga-se de passagem) propriamente dita porque as vezes ficamos tão preocupados em criar toda uma situação interessante para o "papel" a ponto de esquecermos que certas vezes testemunhamos (e mesmo protagonizamos) histórias tão ou mais esdrúxulas que a ficção. 
A história que segue é baseada em fatos reais. Pior que isso: Aconteceu de verdade! 
Não foi comigo, foi com um amigo cujo o nome (bem como o de todo(a)s os demais envolvidos) manterei no mais absoluto sigilo. 
Esse meu amigo casou-se bêbado (literalmente, eu estava entre os convidados da cerimônia onde serviram uma batatinha inglesa da qual não me esqueço até hoje) com uma menina muito legal (minha amigona também) e tiveram uma linda filinha. 
Viveram bem e felizes por algum tempo até que um dia resolveram se separar (na verdade foi ela quem quis). 
A notícia do rompimento de ambos me pegou de suspresa pois eu frequentava a casa deles e os tinha como um casal feliz e inseparável apesar das adversidades que existem na vida de todo mundo.
O caso foi que meu amigo acabou ficando meio chupeta da cabeça com a separação, embora nunca tinha sido exatamente um exemplo de sanidade. Vivia com histórias estranhas como a de que as pedras de uma cachoeira são moles pela manhã, que os espermatozóides sobrevivem por seis meses no estômago de uma mulher se ela engolir o sêmem após o sexo oral, que cachorrões pretos apreciam para ele na véspera de quando algum conhecido seu fosse morrer, que ele aprendeu japonês jogando PlayStation, entre outras... 
Depois de ser abandonado pela esposa suas histórias atingiram um patamar superior. Ele foi até um amigo meu querendo uma espingarda de pressão emprestada. Indagado sobre pra que precisaria da arma de chumbinho, respondeu que tencionava matar um Anú-preto. Além de meio zureta meu amigo agora tencionava se tornar um criminoso ambiental, logo ele que sempre me pareceu ser um defensor da natureza. Novamente questionado sobre seus intentos acabou revelando que precisava caçar um Anú para arrancar, torrar e ralar o bico do bicho. Segundo lhe disseram, se atirado sobre a cabeça da mulher o pó mágico resultante do processo a faria se (re)apaixonar pelo projeto de feiticeiro-macumbeiro (Nota do escritor: Perguntar para a fonte se a espingarda chegou a ser emprestada).
Com a falha da tentativa da Simpatia do Anú (se é que ele chegou a tentar), esse meu amigo resolveu mudar de tática. Já que meios sobrenaturais estavam fora de cogitação, ia tentar reconquistar sua amada de uma maneira menos garantida: Conversando! 
Uma vez que ela recusava-se a se encontrar com ela, a maneira encontrada foi telefonar. Só que ele não tinha telefone... Para sua sorte o vizinho (e meu amigo também) de muito bom coração emprestou seu telefone para que ele ligasse para o celular da ex e com ela falasse por horas. Horas! A conta do telefone, quando chegou, assustou muito mais do que os contos de terror e suspense que escrevo as vezes. E para piorar nada deles reatarem.
Um último esforço foi planejado então. 
Meu amigo de coração partido fez uma seleção de músicas românticas bem ao gosto da mulher que amava e queria de volta. Gravaria todas elas num CD (fazem alguns anos isso já, e gravar um CD naquela época não era algo tão acessível como hoje em dia) e a presentearia. "The Forever Please Remember" foi como ele batizou a seleção de músicas, mostrando que se era o Ás do japonês, do "ingrêis" passava longe!
Para gravar o disco foi pedir ajuda novamente para o cara que gentilmente lhe cedeu o telefone (e ainda estava remoendo o prejuízo). Como uma vingança maligna, ele topou de gravar o CD mas ao invés das músicas levadas tascou de "Vai Lacraia" pra baixo no disco, que foi entregue para o alvo no mesmo dia. 
Não preciso nem dizer que os dois jamais reataram... 
Mas viveram felizes para sempre, separados mesmo.


FIM

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A Caverna



Era uma vez uma caverna mágica acessada através dos sonhos. 
A tal Caverna mágica dava a quem quer que conseguisse achar o caminho para para ela o que quer que fosse que a pessoa quisesse, com uma única e restrita condição: Tinha que ser algo de que a pessoa realmente precisasse. 
Podia-se ir lá quantas vezes se quisesse, mas era apenas um pedido por vez e o caminho estava sempre em constante mudança, o que dificultava bastante acha-la.
Certa vez, todos os "usuários" da Caverna receberam um aviso de que poderiam ir até lá pela última vez pois ela estava encerrando suas atividades.
Na sua última visita, muitas pessoas quiseram como um último desejo saber o motivo do fim da Caverna e descobriram que alguém tinha ido lá e pedido várias coisas das quais não precisava. A mania pegou de tal modo que o que deveria ser uma dádiva virou uma espécie de "Bolsa Família" sobrenatural. 
Os administradores da Caverna resolveram levar seu negócio para um plano mais elevado.


FIM


Este texto foi imaginado, escrito e publicado por mim originalmente aqui: http://migre.me/1FYgi
Agradeço se você puder apreciá-lo também no Recanto das Letras, uma vez que lá tenho a opção de contar as leituras! 
Obrigado!

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A Pior História de Terror do Mundo Jamais Contada



... e então o casal gritou, foram as crianças que tinha sido assassinadas!
Todos ao redor da fogueira surpreenderam-se com o fim da história.
Eram três casais acampando perto de uma cachoreira. Uma churrasqueira improvisada com tijolos ia deixava a carne ao ponto e enquanto isso eles divertiam-se contando histórias de terror. Acabara de terminar a terceira da noite.
- Gente... eu tenho uma boa...
- Então conta - pediram algumas vozes em coro.
- Não é tão simples assim... é uma história muito feia mesmo... terrível. Não sei se é verdadeira ou não, algumas pessoas juram que aconteceu mesmo, outras dizem que é tudo invenção... só sei que eu quase me borrei quando ouvo.
- Então conta logo!
- Tem certeza que querem mesmo ouvir?
- Sim - dizem alguns, outros assentem com a cabeça.
- Mas eu já vou avisando que é muito feia mesmo... eu que não sou de me impressionar tive pesadelos depois de ouvir.
- Já tô ficando com medo - diz uma garota magra, apertando-se contra o namorado com quem já estava de braços dados.
- Sobre o que é?
- Ah, só conforme eu for contando que vocês vão descobrir... senão perde completamente a graça.
- É sobre vampiros?
- Não.
- Lobisomens?
- Não.
- Zumbis?
- Não.
- Assassinos, fantasmas, lendas urbanas, animais assassinos, serial-killers, palhaços, tortura?
- Nada disso... é sobre uma coisa que a princípio não tem nada de aterrorizante mas conforme as coisas vão se desenrolando fica assustadoramente insuportável.
- Conta logo então!
- Certo, eu conto. Mas com a condição de que todo mundo aqui concorde em ouvir. E aviso pela última vez: É uma história de terror MESMO, horrível... Eu tô com ela na cabeça até hoje. Querem mesmo?
Todo mundo faz que sim com a cabeça, menos uma loirinha. Ela diz:
- Larga a mão disso... Não quero saber!
Ela toma uma vaia, levanta contrariada e vai para sua barraca. Seu namorado vai logo atrás, depois de lançar um olhar recriminador para os outros.
Uma outra moça diz para o namorado:
- Precisava ter vaiado ela? A coitada magoou...
- Ah, quem mandou ser fresca?
- Então quer dizer que se fosse eu que ficasse com medo e não quisesse ouvir você não ia me apoiar? Tá bom, pode deixar - ela se levanta e vai para a outra barraca. Seu namorado, depois de um olhar abobalhado para o casal remanescente vai atrás dela.
- Viu o que você fez? - pergunta a última moça, namorada do cara que ia contar a história.
- Mas...
- Não tem nada de "Mas..." não! Sobrou pra nós dois vigiarmos a churrasqueira, acabou a noite! Seu sem graça...
E assim a pior história de terror do mundo acabou não sendo contada.


FIM


Este texto foi imaginado, escrito e publicado por mim originalmente aqui: http://recantodasletras.uol.com.br/contosdesuspense/2434949
Agradeço se você puder apreciá-lo também no Recanto das Letras, uma vez que lá tenho a opção de contabilizar as leituras! Obrigado!


segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Tanto fez, tanto faz...



Todos os dias, perto do ponto onde eu pegava o ônibus para voltar para casa, ficava sentado um mendigo bem velhinho, de olhos claros, barba e cabelos brancos. Desde a primeira vez que o vi simpatizei com ele, e notei pelo seu olhar que o sentimento fora mútuo.
Foi num dia como outro qualquer que ele chegou até mim (eu sempre estava sozinho no ponto) e perguntou?
- Moço... você tem um real?
Eu sorri, apanhei uma moeda que tinha no bolso e entreguei para o ancião. Ele apanhou o dinheiro, agradeceu, baixou os olhos e perguntou:
- Moço... o Sr. é Deus?
- Não... - respondi meio abobado, até então nunca tinha notado sinais de que ele tinha alguns parafusos a menos.
- Ah... Seu ônibus chegou! - me disse ele então. Eu entrei e parti.
Desse dia em diante essa história passou a se repetir sem muitas variantes. 
Todos os dias ele vinha até mim, me pedia um real, eu dava ou não (passou a ser um hábito deixar o real dele separado quando eu tinha), ele me perguntava se eu era Deus, eu respondia que não, ele avisava que meu ônibus estava chegando e eu ia embora.
Foi dentro do ônibus num belo fim de tarde aquilo começou a me intrigar. "Na próxima eu pelo ele!", pensei comigo.
No dia seguinte, na mesma hora, no mesmo local, a história ia se repetindo. Ele veio até mim.
- Moço... você tem um real?
- Aqui está! - sorri e lhe entreguei a moeda.
- Moço... o Sr. é Deus?
- Sim!
- Ah... Seu ônibus chegou!
Eu entrei e parti.


FIM


Este texto foi imaginado, escrito e publicado por mim originalmente aqui: http://recantodasletras.uol.com.br/contoscotidianos/2426976
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sábado, 31 de julho de 2010

Dona Izildinha


Rezava a lenda que Dona Izildinha passara já a algum tempo dos cem anos de idade. 
Solteirona convicta, sua existência limitava-se basicamente a acompanhar da fresta da janela que dava para a rua a vida de todos os vizinhos e reclamar deles para o leiteiro, o padeiro, o carteiro e qualquer outro que fosse por algum motivo ter com ela. 
Tinha todas aquelas famas comuns ao seu estereótipo: Bruxa, macumbeira, mal-comida na juventude (claro, nos dias atuais isso estava fora de questão, embora tenha louco pra tudo nesse mundo...) e daí por diante.
Muito estranharam os jovens da casa da frente que falavam alto na calçada, já tarde da noite, e ouviam o bom e velho rock'n roll quando Dona Izildinha saiu com uma bandeja cheia de copos descartáveis com o mais cheiroso chocolate quente que eles já tinham visto na vida. O normal, vindo dela, seria uma ligação para o 190.
Sorveram tudo, até a última gota. Delicioso, espumante, espesso e tendendo mais para o amargo que para o doce. Perfeito para aquela noite fria.
Dona Izildinha entrou de volta em sua residência, passou um pano na bandeja e da sua frestinha ainda pode ver alguns dos últimos jovens estrebuchando no chão, soltando sangue por todas as vias possíveis de seus organismos enquanto urinavam e defecavam nas roupas. 
A falação cessara, a única coisa que quebrava o silêncio da noite era o bom e velho rock'n roll.


FIM


Este texto foi imaginado, escrito e publicado por mim originalmente aqui: http://recantodasletras.uol.com.br/microcontos/2409443
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sexta-feira, 30 de julho de 2010

A Seita



O delegado examinava calmamente as unhas recém-feitas, lisas e brilhantes, quando um investigador cheio de gel no cabelo (ou seria cabelo no gel?) irrompeu sala adentro, sem bater na porta:
-DELEGADO!
Após dar um gritinho esganiçado e se recompor do susto abanando-se com uma G Magazine, ele pergunta:
- Sim?
- Delegado... acabamos de receber isso, é quente, quentíssimo! - diz o investigador e entrega para seu superior hierárquico um delicado papel cor-de-rosa escrito a glitter lilás.
Após alguns instantes lendo, o delegado solenemente pronuncia:
- Babado forte! Arrume a viatura e mais dois homens, vamos averiguar isso imediatamente! É hoje que acabamos com a seita!


Enquanto nossos bravos homens da lei partem em diligência, vamos lançar luz sobre o que seria a tal seita, A Seita β.
A vários meses A Seita β vem aterrorizando os moradores de toda a outrora pacata cidade.
Na calada da noite, todas as noites da semana, todas as semanas do mês, residências são silenciosamente invadidas e tem seus cestos de roupa-suja revirados e furtados.
Nas manhãs que se sucedem aos ataques, donas-de-casa e empregadas domésticas, ao pegar as roupas para lavar dão por falta de todas as roupas íntimas femininas que ali deveriam estar. As calcinhas usadas simplesmente desaparecem.
A princípio pensou-se se tratar do ato de algum pervertido solitário, mas após vários casos semelhantes serem relatados simultaneamente em diferentes e distantes pontos, chegou-se a conclusão de que aquilo não poderia ser obra de um único homem.
Uma acirrada investigação provou, através de monitoração de última tecnologia, que não estavam envolvidos os donos de lojas de roupas íntimas femininas (embora fossem eles os maiores beneficiados com o desaparecimento das calcinhas da cidade).
A delicada carta anônima deixada a pouco no 24° D.P. da cidade nada mais era do que uma denúncia anônima entregando o endereço da sede da Seita β. E era para lá que os policiais rumaram a toda velocidade.


O motorista da viatura pisava fundo.
De tempos em tempos dava uma espiada no retrovisor para ver se o vento não estava desmanchando seu penteado.
- Vai mais devagar! - pede um policial sentado no banco de trás.
- Meu bem, mais devagar que isso não dá!
- Quietas, já estamos chegando... desligue o giroflex e a sirene, vamos entrar a francesa!
O carro para silenciosamente na frente de uma casa em cujo portão havia uma placa de vende-se. O portão não estava fechado e eles entram vagarosamente, de armas em punho.
Conforme iam se aprofundando no interior da casa, um forte cheiro acebolado invadia suas narinas.
Ao abrirem a porta de um quarto, após constatarem que todo o resto da residência estava vazio, tiveram a certeza de que estavam realmente na sede da Seita β: Montes e mais montes de calcinhas usadas estavam espalhadas por todo o quarto, as paredes estavam todas recobertas por fotos de mulheres nuas em posições ginecológicas. Haviam pequenos altares nos quatro cantos, cada um com uma escultura em forma de vagina, cada qual de um material diferente (madeira, vidro, metal e mármore). No centro do aposento, uma coluna sustentava o poema A CRIAÇÃO DA XOXOTA, de Mário Quintana, devidamente emoldurado e iluminado pela chama de duas velas vermelhas em formato de seios fartos.
Enquanto o delegado olhava consternado para o aposento, um de seus homens lhe entregou um bilhete em papel ordinário, escrito com esferográfica azul:
"Vocês podem ter vencido a batalha, mas não venceram a guerra. Somos cada vez menos, mas sempre existiremos! Vão tomar nos seus cús, seus veados! Ass.: β".


FIM?

Este texto foi imaginado, escrito e publicado por mim originalmente aqui: http://recantodasletras.uol.com.br/contos/2407535
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terça-feira, 29 de junho de 2010

O Vulto

Pele pálida, magro, olhar penetrante, capa preta, luvas de couro e uma comprida, afiada e reluzente lâmina prateada. O vulto era praticamente uma caricatura ambulante de um assassino de filmes de terror antigos. Seria engraçado se não fosse real. Com movimentos mecânicos e gestos teatrais ele atravessa a rua olhando para os lados. Esgueira-se entre um nicho e outro até que chega a casa. Por algum motivo sabe que há uma cópia da chave do portão no vaso a direita da porta. Ele a apanha e entra, sedento de sangue...


Janaína dirige de volta para casa após deixar as crianças na casa da sogra. "Finalmente um fim-de-semana de folga", pensa ela. Era sexta-feira e ela só voltaria para apanhar os meninos no domingo a tarde.
Fazia tempo que ela e o marido não tinham um tempo só para os dois. Passou no supermercado e comprou tudo o que precisava para o jantar especial que tinha planejado. Pedro, seu marido, ainda estava no trabalho e não sabia que seus filhos passariam dois dias fora, na casa de sua mãe. 
Tudo fazia parte de um complô de sua mãe e sua esposa para dar um fôlego novo ao casamento, tirar os dois um pouco da rotina...
Ela já estava quase chegando em casa quando o celular tocou. Era Pedro.
- Querida, más notícias...
- O que foi meu bem? (Não, hoje não...).
- Meu colega ligou, não vai poder vir assumir o plantão da noite... Vou ter que ficar no hospital cobrindo ele...
- ... que pena... (Merda!).
- Pois é, eu não posso pisar na bola com ele... Lembra que no mês passado ele segurou pra mim?
- Sim... e que desculpa ele (Filho da puta!) deu pra não vir?
- Não é desculpa não, ele vai ter que entrar numa cirurgia sem previsão pra acabar, me ligou perguntando se eu podia segurar algumas horas pra ele... Eu disse que ele podia deixar o plantão todo para mim, afinal não tinha nenhum compromisso para hoje mesmo.
- É, fez bem (Merda!).
- E as crianças?
- Tudo tranquilo.
- Bom, agora também são só mais essas doze horas e o fim de semana é nosso!
- Sim!
- Vou indo então amor, a enfermeira veio me avisar que as consultas estão acumulando. Te amo!
- Também te amo...
Janaína desliga o telefone. Minutos depois está em frente a sua casa. O portão eletrônico se abre ao seu comando e ela entra com o carro. Já está fechando a porta da sala quando ele encosta no chão novamente.
Entre as compras do supermercado havia uma garrafa de vinho que seria sua companheira essa noite. 
De taça na mão ela assiste ao jornal, seguido da novela. Depois coloca uma comédia romântica no DVD mas não consegue rir tão logo, só depois que o vinho sobe um pouco.


Por uma fresta na porta o vulto observa. Sua respiração é contida e seus passos leves. Ele não tem pressa, o tempo é e sempre será seu aliado. São anos de experiência, refinados a cada uma de suas "apresentações" como ele gostava de chamar para si mesmo seu passatempo sangrento.


Janaína sente uma corrente de ar frio passando por sua nuca. Não fosse a janela aberta na cozinha diria que estava mais para um presentimento do que para o vento propriamente dito. Ela fecha a janela e ruma para seu quarto. Senta-se na escrivaninha e liga o computador. Abre seu e-m@il, lê alguns, responde outros. O sono começa a bater... Ainda que essa noite seus planos tenham ido por água abaixo, amanhã cedo Pedro estaria de volta e poderiam sair para dar um passeio pela cidade, tomar um sorvete, namorar... Então, em meio a esses rompantes de adolescente apaixonada, surge uma ponta de arrependimento (seria isso?) por ter deixado os meninos com a avó. Se estivessem aqui, a essa hora ela provavelmente os estaria colocando no banheiro para escovar os dentes pra dormir, depois de algumas rodadas de videogame. Aquele vinho estava tão bom!


Quando a última luz se apaga o vulto sai de seu esconderijo e respira fundo. Era hora. Sua lâmina é afiadíssima, precisa e fria, muito fria. A última sensação de muitas pessoas foi ter gelo nas entranhas enquanto era rasgado de fora a fora, sem poder gritar pois tinha uma mão de aço tapando-lhe a boca. O sangue escorre, vísceras e orgãos são espalhados por toda a casa, carne humana é devorada com sofreguidão. O vulto está em êxtase.


Pedro liga para casa mas não atendem. Teve um pressentimento, um mau pressentimento, mas não era do tipo que dava importância para essas coisas. Tentou uma vez, outra e mais outra. A chegada de uma urgência no Pronto Socorro o impediu de tentar mais vezes. Não que fizesse diferença...


Saciado, o vulto deixa a casa. Sorrateiramente ele desliza pela rua até que desaparece, sem deixar nada de si para trás.


Cansado, Pedro chega em casa. O portão eletrônico se abre a sua frente. Ele entra e vai direto ao quarto das crianças, dar aquela espiadinha paternal básica. Os meninos não estavam ali. Nem dormindo no seu quarto também, onde a ausênsia mais gritante era a da esposa. Será possível que tinham saído assim tão cedo?
O telefone toca na sala. Ele já está chegando perto para atender quando tem um pequeno sobressalto ao ver Janaína se levantando do sofá, que ficava de costas para quem vinha pelo corredor dos quartos.
- As crianças...?
- Na sua mãe, deixei eles lá ontem pra gente ter uma noite só nossa...
O telefone toca insistentemente.
- Estraguei tudo, não foi?
- Ainda temos o fim de semana praticamete inteiro pela frente, e vai ser inesquecível!
Pedro atende o telefone:
- Alô... sim... sim... - diz ele empalidecendo. -Não...
- Querido?
- Não... - as lágrimas surgem.
- Querido... os meninos...?
- NÃO! - grita Pedro e bate o telefone.
Um olhar de Pedro responde a pergunta de Janaína.
Eles se abraçam.
Gritos ecoam do lado de fora da casa.


Não muito longe dali, o vulto entra em seu trabalho. Cumprimenta simpaticamente cada colega por qual passa até chegar ao seu setor. As lembranças da noite anterior ainda estão frescas em sua memória, tudo correra perfeitamente como sempre. Teria alguns dias ainda para planejar a próxima apresentação. Dessa vez ao invés de crianças estava pensando em destrinchar um casal de idosos. Mas não queria pensar nisso agora, tinha muito tempo pra isso pela frente ainda...

terça-feira, 8 de junho de 2010

Rebelião no Hospício


Era uma vez um hospício onde ia tudo de mal a pior:

Era mal administrado, não prestava serviço adequado aos seus internos, havia corrupção por toda parte, entre vários outros problemas seríssimos.
A gota d'água mesmo veio na hora do almoço de uma quinta-feira. Podia ter sido numa terça ou quarta-feira, mas não... Resolveram bem na quinta avisar (e em cima da hora, diga-se de passagem) que o purê-de-batata estava suspenso do cardápio.
Não era de hoje que essa notícia vinha sendo sussurada pelos corredores do hospício.
"Não sei o que vai dar se isso realmente acontecer..." diziam os enfermeiros pelos corredores, acertadamente antevendo e já temendo o pior.
O que importa é que cortaram o mesmo o purê-de-batata, e isso foi demais para os loucos que ali viviam e que a muito tempo já sabiam que o prato estava com os dias contados (afinal de contas eles eram loucos, não burros).
Tiveram todo o tempo do mundo para se preparar antes, tinham tudo esquematizado se essa barbaridade viesse a ocorrer!
Tão organizados quanto formigas, conseguiram capturar todos os funcionários do hospício (um a um, sem alarde) e ao invés de anunciar isso com todo o estardalhaço pro mundo inteiro, preferiram ficar na deles.
Foram administrando o hospício a sua maneira, afinal de médico e louco todo mundo tem um pouco.
Os reféns passaram a ser tratados como internos (e depois de algum tempo acabaram por se acostumar com a idéia), alguns internos permaneceram como internos e outros assumiram os diversos cargos necessários para tocar o barco, como se nada tivesse acontecido.
Foi um sucesso a rebelião dos loucos.
Meses depois, "nosso" hospício virou modelo para todo e qualquer tipo de instituição no país.
Suas normas e rotinas foram implantadas em vários lugares, sendo que alguns dos novos administradores foram convidados a fazer palestras até no exterior sobre o tema.
Tudo ia muito bem até que um auditor com cara de rato começou a desconfiar daquele lugar onde tudo funcionava direito demais, sobrava verba, não gerava reclamações... alguma coisa de errado tinha que ter ali!
Não foi preciso uma investigação muito mais profunda.
O sonho acabou.
As rédeas do hospício voltaram para pessoas normais, os lugares que adotaram suas políticas ficaram com o nome sujo (por melhor que tenham funcionado nesse período) e em dias a utopia que tinha se formado ali se desfez.
Em pouco tempo tudo estava funcionando como antes:
salários atrasados, falta de manutenção, abandono, muita robalheira e violação de direitos.
Mas não vai ser assim por muito tempo não... ouvi cochicharem por aí que estão querendo cortar o suco de cajú.
Aí meus amigos, se preparem pois a coisa vai ser feia MESMO!

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Esquizofrenia


Exausto depois de mais um dia de sua fria, robótica e patética existência, o rapaz deita-se para dormir.
Sua mãe trocara toda a roupa de cama.
Talvez aninhado entre todos aqueles lençóis, travesseiros e cobertas macias o sono não demorasse a vir, como sempre acontecia...  Não! No fundo ele sabia que o sono ia demorar sim, como sempre.
Virou de um lado, do outro, trocou os travesseiros de posição (dormia com pelo menos três: um sob a cabeça, abraçado a outro e com o terceiro entre os joelhos) e nada.
Então os pensamentos começaram a vir.
Eram sempre os mesmos pensamentos, sempre antes de dormir e sempre pensados somente naquela lacuna de tempo entre deitar e pegar no sono.
Em outros momentos, ao longo do dia, era como se eles não existissem, como se nunca antes tivessem sido pensados. E se ele não se lembrava deles depois e ninguém sabia da existência de tais pensamentos (a não ser ele mesmo, ainda que somente durante o momento em que os pensava), era como se eles realmente não existissem.
Não havia uma lógica ou coerência nos tais pensamentos, eram questionamentos sobre até que ponto a vida era real, o mundo era real, a "realidade" era real.
Um pensamento levava a outro, que levava a outro (sempre o mesmo caminho todas as noites), até que ele chegava num ponto em que surgia - como por mágica - uma idéia que saía completamente fora da linha de raciocínio que estava seguindo e o fazia perder o fio da meada, bem quando ele já estava sentindo que se aproximava de alguma coisa muito perto de uma resposta (resposta essa que ele originalmente não procurava).
Era como se algo, alguma coisa ou alguém não quisesse que ele descobrisse a verdade, fosse ela qual fosse.
Sem ter a menor idéia de quanto tempo se passou desde quando se colocara para dormir (o tempo era mais relativo do que nunca durante os tais pensamentos), o rapaz sabia que na próxima noite teria mais uma chance de "desvendar o mistério" (por assim dizer), embora só fosse voltar a pensar nisso quando chegasse a hora.
Como sempre (havia uma espécie de rotina na situação), começaram as vozes.
No começo da "conversa" eram sempre duas, com opiniões radicalmente contrárias uma da outra. Havia uma terceira que tecia breves e racionais comentários sobre as duas primeiras, uma quarta que nunca dizia nada mas estava sempre atenta as outras e uma quinta que não vinha sempre, mas era extremamente zombeteira e indelicada com as demais. Cinco foram quantas ele conseguira contar, mas provavelmente haviam mais pois a certa altura o zum zum zum era tanto que mal dava para distinguir quem dizia o que, e nesse exato momento ele lembrava como dormir: Já que não dava para acompanhar o que estava acontecendo, o segredo era simplesmente ignorar.
A partir do momento em que ele parava de tentar se identificar com essa ou aquela voz (e todas tinham um pouco - ou tudo - dele), o sono vinha.
A última lembrança antes de dormir era uma das vozes (talvez a que só "observava" as outras) lhe dizendo que isso não ia acabar bem.
Mas ele estava com tanto sono para pensar nisso agora...



FIM

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Fogo de Palha



Começou tão rápido que ninguém soube explicar quando, onde ou por qual motivo.

Foi aquele alvoroço: Correria pra lá, pra cá, todos inquietos e sem falar em outra coisa até que tão repentinamente como se iniciara, acabou...

Pouco tempo depois já não se lembravam mais, fora só fogo de palha!

sábado, 10 de outubro de 2009

Amarelo Sangue



Já anoiteceu.
O interior da casa é aconchegante.
A sala de estar faz também as vezes de biblioteca e possui uma estante enorme de carvalho repleta de livros, a grande maioria antigos mas em excelente estado.
A frente do móvel, um homem corpulento admira a coleção a sua frente com os braços cruzados para trás e uma expressão de contentamento.
A campainha toca e ele caminha até a porta.
- Sim?
- Sr. Dario? - pergunta o motoboy conferindo o nome numa nota fiscal.
- O próprio, em carne e osso. Aliás, bem mais carne...
- Ahnnn... ah, sim. Encomenda pro Sr., assine aqui, aqui, aqui e aqui, por favor.
- Pois não...
Resolvido os trâmites legais:
- Aqui está.
Os olhos do homem até brilham ao pegar o pacote, cujas dimensões deixam explícito seu conteúdo: um livro.
- Mas rapaz,vocês são rápidos no gatilho mesmo, fico impressionado toda vez...
- Ora, obrigado, não é mais que nosso dever...
- Você me parece um tanto nervoso, algum problema?
- Ah, um pequeno imprevisto no caminho, quase fui pra m.... quase sofri um acidente na entrada da cidade.
- Que coisa... você não gostaria de entrar um pouco e se recompor? Tomar um refrigerante, usar o banheiro? Na verdade, eu insisto. Entre, vamos!
Hesitante, o entregador obedece. "Preciso mesmo dar uma mijada... e o cara não leva jeito de veado, deve ser a tal hospitalidade mineira de que tanto falam...".
Já dentro da casa:
- O banheiro é logo ali, fique a vontade.
Na sala de estar o homem abre cuidadosamente o pacote, até que o livro se revela: Capa amarela, título em italiano, mais de trinta anos de idade.
Quando o motoqueiro volta do banheiro, encontra o livro sendo folheado e cheirado por seu novo dono, praticamente num estado de pré-extase. Ele demora um pouco para perceber que seu convidado retornara a sala, e não se emcabula por ter sido flagrado naquela situação infantilmente ridícula.
- Livros... são minha paixão. Este é o último da coleção. Especial.
- Eu imagino, só pelo preço que o Sr. pagou por ele...
- Ah, pois eu pagaria até mais, e me arriscaria mais também. Este é o último Giallo que me faltava.
- Gi o quê?
- Giallo. Amarelo em italiano. Faz parte de uma série de livros baratos lançados a décadas atrás na Itália, tendo como característica principal a capa amarela. Como eu disse, só me faltava este.
- Legal...
- É, legal.
- Me disseram para ter um cuidado especial com essa entrega. Na verdade, dizem isso pra todas as entregas, mas nessa eu senti que a coisa era realmente séria. O Sr. Fulcci disse que durante o leilão receberam várias ameaças, me parece que houve até uma tentativa de roubo...
- Sim, até onde eu saiba não há mais nenhum exemplar deste aqui. Pelo menos não a venda por aí, e de que outra maneira você encontra algo assim, não é mesmo?
- Pois é... Bem, já vou indo então, agradecido por me deixar usar o banheiro.
- Não há de quê. Vai ficar hospedado em algum hotel da cidade?
- Não, volto para São Paulo hoje ainda.
- Pois então tome um gole de café, pra te deixar alerta.
- OK, eu aceito.
Os dois dirigem-se para a cozinha.
- Mas onde foi que a empregada guardou tudo?
- Hahahahah... é assim mesmo - ri o rapaz percebendo o quanto o homem parecia perdido em seu próprio habitat, procurando as coisas. - Antes de passar aqui eu fui até a sua loja no centro da cidade, falaram que as vezes o Sr. ficava por lá até mais tarde.
- Sim, mas agora que estou me retirando do negócio tenho ficado preguiçoso...
- Por sorte eu tinha este endereço residencial também...
- Sim, muita sorte. Na verdade, eu contava com isso...
- Hã?
- Nada não... aqui seu café, sente-se. É instantâneo, espero que não se importe.
- Claro que não, está ótimo.
- Mas, como eu disse, estou deixando os negócios.
- Ah é? Mas o Sr. não parece em idade de se aposentar. Nossa, café forte!
- A questão não é essa. O que eu precisava para me "aposentar", como você mesmo falou, eram duas coisas: Completar minha coleção de Giallo's e um substituto. Ou bode expiatório, para ser mais exato - essa última parte só foi dita quando o homem observou que a alta dose do potente relaxante muscular misturado ao café já estava fazendo efeito no motoboy, que sentia as pernas tão pesadas que mal podia movê-las. Além disso, seus lábios, dedos e peito formigavam. A cabeça estava leve, e ele não conseguia falar. Mas até então ouvia bem.
- Eu cheguei na cidade pouco antes de você. Quando tentei roubar o livro não obtive sucesso, mas tive acesso a lista de todos que deram um lance. Pouca gente. Não foi difícil descobrir o vencedor do leilão, sua empresa está cheia de gente desonesta que passa qualquer tipo de informação por uma quantia quase irrisória. O Sr. Fulcci devia escolher melhor seus funcionários... Na verdade, eu mesmo poderia ter dado o lance final, mas qual seria a graça nisso? Já estou pegando prática em conseguir meus livros assim, sujando as mãos de sangue. O Sr. Dario está morto na loja dele. A última coisa que viu foi minha luva de couro preto empunhando uma navalha afiadíssima que se pôs a dilacerar seu rosto e pescoço.
O homem sorri. Um sorriso normal, o que tornava tudo muito mais assustador. Ele veste suas luvas.
- Peguei um souvenir dele, que eu vou deixar com você para quando a polícia chegar. - o homem sacode uma orelha na frente do rosto do rapaz, antes de guardá-la no bolso de sua jaqueta de motoqueiro, junto da navalha ainda suja de sangue e as chaves da casa. - Isso liga você ao crime. Também vou por fogo naquela estante lá na sala. Uma bela coleção, mas tudo figurinha repetida. A última do álbum, a carimbada vai em segurança comigo. Tchau.

De seu estado paralisado, o motoboy ouve os passos do homem se afastando. Ele tenta se levantar, mas acaba caindo deitado de lado no chão frio da cozinha. Ele ainda escuta o fogo crepidando na estante da sala, muita falação do lado de fora da casa depois de algum tempo e uma sirene se aproxiamando. Estava realmente encrencado.

Bem mais tarde, no carro, o homem dirije satisfeito de volta para casa. Em alguns trechos, o sorriso em seu rosto aumenta e ele acaricia o livro ao seu lado, no banco do passageiro.

FIM

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Criaturas Estranhas

- Papai... - disse a pequena Jill'o-ha logo após ser colocada para dormir em seu compartimento umidecido.


- Sim?


- Me conta uma histórinha antes de eu dormir? - a pequena cauda da criança começou a se agitar por debaixo do pijaminha de animetal.


- Uma histórinha?


- Sim, papai! - uma luzinha azul bem leve começou a emanar do focinho de Jill'o-ha.


- Hum... - Jill'o-hu IV, o pai, coçou a cabeça esquerda antes de responder: - Uma histórinha de terror? Como sempre? - ele não estranhava que uma criança de apenas três ciclos e meio já se interessasse por histórias macabras. Ele mesmo começou a gostar da coisa com menos de dois ciclos!


- Sim papai! - a criança sorriu expondo as afiadas presinhas. Duas ou três delas estavam faltando na mandíbula superior, formando uma simpática janelinha. Provavelmente as presas permanentes demorariam mais para crescer que a orelhinha esquerda...


- Mas é muito cedo, querida, não quer esperar a terceira lua aparecer?


- Não, amanhã eu não tenho aula de Expiloquitia Aplicada a tarde, posso chegar quando já estiver bem escuro...


- Tá bom, só uma... E amanhã você vai me ajudar a tirar todos os Clummings do quintal, certo? Eles estão comendo todos os Rummarians da sua mãe e ela anda sem tempo de cuidar do jardim fluorescente ultimamente.


- Combinado, papai! Mas conta logo! - as anteninhas de Jill'o-ha tremiam de alegria, emitindo aquele sonzinho caracteristico. Os olhinhos brilhavam, alternando-se entre laranja e roxo.


- Era uma vez, em um espaço-tempo muito distante, um planetinha azul chamado Terra...

terça-feira, 17 de junho de 2008

O Tigre


Já a algum tempo o sujeito estava dando bandeira demais perto do território do Tigre.
Era uma fera de verdade (selvagem no mais puro sentido) e não um desses pobres animais enjaulados, adestrados, limpos, de pelo escovado e dentes limados que não saem do cativeiro nem quando o tratador esquece a porta aberta.
O animal deu seu bote. Ao invés de pegar o homem pelo pescoço (o que garantiria uma morte rápida e praticamente indolor) acabou juntando-o pelo ombro com a mandíbula de presas afiadas.
Com a força que tinha, o homem começou a se debater e berrar desesperadamente.
Isso foi enfurecendo cada vez mais o Tigre, que não devia estar gostando de estraçalhar sua vítima mas, afinal de contas, quem esse cara pensava que era pra atrapalhar assim o seu almoço?

sábado, 29 de março de 2008

A Invasão


O menininho passava quase o dia inteiro no quintal de sua casa atirando pedras numa latinha de refrigerante.


Nunca acertava, mas não desistia nunca.


Uma bela tarde os alienígenas invadiram nosso planeta.
Eram feios de doer e foram logo avisando que iam explodir tudo por aqui, sem dó nem piedade.
Só não o fariam se aquele garotinho do começo finalmente acertasse a lata, e foi armado o maior circo para o evento que definiria o futuro da humanidade.


Tudo preparado.
A lata, a pedra, a platéia, a imprensa...


O Menino meditou um pouco, tomou fôlego, mirou com um dos olhinhos fechados e atirou a pedra, que passou dolorosamente longe do alvo.


Os alienígenas voltaram para suas naves, decolaram e assim que estavam a uma distância segura um deles apertou o botão do detonador e nosso mundo foi vaporizado da existência, reduzido a partículas.



Moral da história: se o moleque não acertava a lata nem na maior das tranquilidades, como fazê-lo com o peso do mundo nas costas?


quinta-feira, 27 de março de 2008

O Caçador de Tesouros


Ele jamais media esforços.
Partia atrás do seu "tesouro da vez" com unha e dentes: Percorria as mais incríveis distâncias, superava os maiores obstáculos, caminhava a beira dos mais profundos abismos, efrentava as feras mais vorazes e peçonhentas e safava-se (com alguns arranhões, diga-se de passagem...) destes desafios mortais.
Tudo pelo tesouro, que muitos até sabiam onde estava mas eram poucos os que se aventuravam a ir buscar, ou ao menos tentar.
O tempo foi passando (come sempre) e ele acumulando suas conquistas e percebendo que na maioria das vezes superestimava demais o valor do prêmio enterrado sob o X marcado no mapa.
Aprendeu a valorizar a busca, a jornada em si e não a chegada ao objetivo, sem nunca se esquecer das experiências e amizades adquiridas ao longo do caminho.
Hora inquieto, hora tranquilo, ele aguarda o dia em que chegará ao seu conhecimento a existência do mais explêndido tesouro da face da Terra, um tesouro que justifique e valha muito mais do que a cruzada para encontrá-lo.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Esperteza


Um belo dia o fazendeiro acordou e viu a porta do galinheiro escancarada. Espiou lá dentro e viu penas pra todo lado, ovos quebrados, sangue e os moradores remanescentes todos empoleirados com olhos mais arregalados do que o habitual.
Sua conclusão foi imediata: Uma raposa!
E estava certo pq, na mesma noite, viu o bicho. Tinha colocado uma cadeira na varanda e ficou lá esperando um novo ataque, de espingarda na mão. Na hora H, entretanto, não conseguiu apertar o gatilho. A visão do patético animal (magricelo e narizudo) o comoveu.Seria um tiro certeiro no meio dos olhos da criatura a melhor solução?
Não, não seria, pensou o fazendeiro.
A coitada da raposa não tinha outra alternativa para não morrer de fome a não ser agir de acordo com sua natureza oportunista. Incapaz de caçar com aquele seu corpinho esquálido, tinha que se contentar em pegar presas indefesas de surpresa, antes que elas soubessem qualquer coisa a seu respeito ou seria tarde demais...
O fazendeiro apenas agitou os braços para espantar o animal.
Nas noites que se seguiram ele mesmo pegava dois ovos e deixava para fora do galinheiro. A raposa vinha sempre pontualmente e os carregava para o mato, onde matava a fome.
E assim foi por um tempo, até que um outro belo dia o galinheiro novamente amanheceu violado.
O fazendeiro não quis julgar a raposa precipitadamente e seguiu sua rotina. A noite deixou os ovos para fora e ficou observando.
Viu quando a raposa veio e carregou seus ovos, voltando pouco tempo depois para entrar no galinheiro.
Ele pensou em pegar a espingarda mas não o fez. Esperou que a raposa saísse saciada deixando para trás ovos quebrados e penas espalhadas.
Foi dormir.
Na manhã seguinte pôs a mão na massa: reforçou bem a porta e as paredes do galinheiro de modo que a raposa nunca mais pudesse entrar.
Funcionou.
A noite ele ficou observando quando a raposa veio atrás de seus dois ovos habituais e, não os encontrando, tentou inutilmente entrar no galinheiro. Ela ainda apareceu nas noites seguintes, até que se deu conta de que a fonte secara.
Tinha de achar outro lugar para encher a barriga.
Andou e andou mata adentro até que achou um buraco num barranco. Pode ver dentro dele pq era uma noite clara de lua cheia e a visão muito lhe agradou.
Eram ovos e mais ovos!
Entrou e se empanturrou, comeu muito mais do que precisaria normalmente para compensar as noites de escassez.
Comeu tanto que teve de se deitar ali mesmo para descansar um pouco.
Estava tão morta que nem se dava conta: as cobras, verdadeiras donas do ninho, já a haviam cercado.
FIM